Prosa
Ela deita-se e o colchão cede debaixo do seu peso cansado. Enrosca-se um cão num tapete, deitado algures no escuro. Há um silêncio gritante na casa. O silêncio de quem dorme e divaga sozinho. "Quando é que eu fiquei tão velha?" pergunta-se ela, assustada perante o eco da sua cabeça. Seria possível...
Post date: 14/01/2015 - 18:17
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“Odeio este trânsito” – dizia-me a minha mãe, com um rosto cansado.
Quando era mais pequena perguntei-lhe: “avó quero dar um beijo daqueles de cinema um dia”… E ela como se o tempo não passasse pelo relógio contou-me páginas de um diário não esquecido.
Nunca tinha esquecido as pinturas em...
Post date: 14/01/2015 - 16:36
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«Por esta altura, a Vó Gi andaria a ver o preço das abóboras no supermercado e o Pai a desfazer as montanhas de tralha na garagem até ao caixote das coisas do natal. Este ano, nada...» - pensava o Joca - «Que se passa?»
- Andam estranhos! – dizia, sozinho na cama, depois de a Mãe o ter aconchegado...
Post date: 14/01/2015 - 13:23
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Parecia sempre só, como se tivesse acabado de nascer.
Despertava para a vida, todos os dias, à descoberta, em expedição...
Olhava tudo pela primeira vez, memorizava aromas, texturas, sensações.
Procurava o frio, o calor, a dor, a ilusão.
Queria apaixonar-se, sofrer e enlouquecer, pelo menos, uma...
Post date: 14/01/2015 - 11:09
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Sou os despojos das escolhas de ontem. Amanhã serei o recomeço depois das cinzas poisarem. Hoje sou a quietude, a prece, e o silêncio do aprendiz.
Post date: 14/01/2015 - 18:12
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Olhou o relógio, já estava a ficar tarde, como acontecia, sempre todas as manhãs, ia a correr apanhar o autocarro.
Ana tinha 18 anos, trabalhava numa loja e a sua juventude e alegria, permitiam, levar os dias,
com entusiasmo e contagiava os clientes, mas o seu sonho era ser Psicóloga.
Achava ela...
Post date: 14/01/2015 - 16:26
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Depois de quase um ano fechada no caixote escuro, a Bola Grande Lilás estava feliz pendente da Árvore de Natal deste ano.
Havia amigas e amigos – as Fitas Douradas e as Fitas Vermelhas, os Sininhos Ruivos e as Estrelinhas Cintilantes, e outras bolinhas parecidas com ela, mas mais pequenas.
E havia...
Post date: 14/01/2015 - 13:20
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Lembro-me de me abraçares com aquela força de soldadinho de chumbo tímido. Libertaste a tua mão direita da arma de dois canos que seguravas para completares o abraço da esquerda. Quis ter-te para sempre naquele momento como meu escudo. E tu quiseste ter-me para sempre naquele momento como tua arma...
Post date: 14/01/2015 - 03:09
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Existe um lugar secreto
para lá dos caminhos de pó usado e horizonte cansado.
Existe um lugar escondido
resistente à vida e à morte,
que não se esgota na erosão do Tempo.
Existe um lugar encantado
onde os animais bebem, juntos, água do mesmo rio,
partilhando a mesma sede;
onde os ninhos embalam a...
Post date: 14/01/2015 - 18:05
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... conto inspirado em pintura do pintor Souza Pinto. Situa-se na bretanha, na viragem do século XIX para o XX...
Post date: 14/01/2015 - 15:31
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O QUARTO
O incentivado cão, entrado pelas traseiras do quarto, confrontou-se com as persianas que já mal se abriam e se colhiam das folhas do sol. Anos a fio, a luz pincelara os azulejos medonhos e incaraterísticos das paredes. São frios os azulejos. Talvez, por isso, não existam quadros nem...
Post date: 14/01/2015 - 13:02
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Não me lembro da última borboleta que vi. Não me lembro de nenhuma se não daquelas desengraçadas, cinzentas, castanhas, que voam pela noite à procura de carne miúda. Já não vejo uma borboleta há muito tempo, a sugar com júbilo aquele pólen dos amores da minha avó. O jardim da minha avó não era o...
Post date: 14/01/2015 - 03:07
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Morde o céu do meu desespero com ânsia de boca enraivecida e leva na palma das mãos o rio dos meus olhos; faz do meu deserto um jardim que ainda não sonho, e oferece-me com os olhos todas as flores do mundo.
Post date: 14/01/2015 - 18:01
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Gravata
Naquele dia bem podia ter sido atropelado, arrastado por uma cheia, acusado de assalto à mão armada. Que, ainda assim, o peso que carregava consigo era infinitamente superior.
Chegou ao quarto, tirou o nó da gravata em frente ao espelho, despediu-se do “ele-de-dia”. Odiava aquela fita,...
Post date: 14/01/2015 - 14:43
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Era sempre da mesma maneira, não valia a pena. Por mais que tentasse alterar fosse o que fosse acabava igual a tantas outras, sem diferenças de referencia maior. Não que isso modificasse muito, mas podia ser diferente. Pelo menos para os outros dada a sua indiferença. Um ano ou mais a procurar ser...
Post date: 14/01/2015 - 12:52
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Estavas sentada e, sobre a mesa pequena redonda, seguravas, com as mãos, o copo alto de vinho maduro. Estavas sozinha, ao canto. Ouvias Rod Stewart pelo microfone que alguém sacudia com a voz. Ouvias e fitavas o teu copo como se ele não estivesse ali. Olhavas para ele -parece que- à procura de...
Post date: 14/01/2015 - 03:05
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Pai, faz hoje quatro anos. Custou-me tanto... dilacerou-me por dentro! Foi sem dúvida a minha viagem mais difícil (e talvez a sua também). Custou-me não ter chegado a tempo de nos abraçar, de dizermos tudo o que não dissemos, de chorar até esvaziar o coração. De nos despedir.
E custou-me mais ainda...
Post date: 14/01/2015 - 17:56
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Hoje em dia erguem-se muitas vozes em protesto quando certo tipo de pessoa é marginalizada na sociedade: a pessoa gorda, a pessoa feia, a pessoa pobre, ou a pessoa deficiente. Esta última porque não tem apoios suficientes, porque não tem acesso ao mercado de trabalho, até mesmo naquelas funções que...
Post date: 14/01/2015 - 14:06
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Na hora do jantar aconteceu a hora perfeita: comida na mesa, sem excessos e sem faltas, nem fome nem desperdício. Ainda entrava a luz do sol pela janela aberta, de moldura ampla para uma vista larga, sem prédios. A cadela sentada aos pés de um banco. O gato pedindo comida, como se de um cão se...
Post date: 14/01/2015 - 12:29
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Vejo-te chegar. Já te conheço o andar.
Quando me vês sorris e contagias meu rosto.
Nesse momento, eu sei, o mundo para.
A paisagem modifica-se ou deixa de existir.
Estamos sós.
Pode desabar tudo à nossa volta,
nada importa naquele bocado de tempo.
Naquela fracção de segundo,
o mundo somos nós....
Post date: 14/01/2015 - 01:09
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Restos de vida
A noite é húmida e cheira a terra mesmo nas ruas estreitas do bairro velho. Cheira ao bolor que se acumula nas rachas do tempo, na tinta descascada, nas janelas de madeira apodrecida de cores incertas em rendilhados de vento.
Vai em silêncio encostada aos prédios, brinca com as...
Post date: 14/01/2015 - 17:27
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É fim do dia, e o sol escorrega para o horizonte, enquanto um vento quente repousa na areia. Sentam-se no chão, num movimento indolente.
ELE: Não te podes fechar no teu mundo. Dá-te aos outros.
ELA: Porquê? e para quê?
ELE: Para todos nós sermos melhores com a partilha de ti.
ELA: Mas o meu mundo é...
Post date: 14/01/2015 - 13:57
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De dentro para fora
e de fora para dentro
vivo muitas vidas numa só...
Faço e refaço o puzzle da minha existência
desintegrando-me em momentos de pó
e reconstruindo os pedaços que ficaram esquecidos na poeira do caminho,
largados sozinhos para de novo fazerem sentido,
peças agora essenciais
no...
Post date: 14/01/2015 - 12:10
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Como as águas do rio correm para o mar, os meus olhos vão dar ao teu sorriso.
Como os pássaros abrem as asas para voar, eu corro para nos teus braços me perder.
Como quem quer, de facto, encontrar-se nesse rumo certo que nos acolhe.
E na água desse rio me purifico e me afogo nesse mar de sensações...
Post date: 14/01/2015 - 01:00
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portas do céu
De volta à esquadra, o Pina encosta os ossos à cadeira, cansado de uma vida inteira no meio de corpos esquartejados. Leva a mão pintalgada de anos de sofrimento à gaveta da sua secretária e saca de lá a garrafa de whisky - bem novo! tão novo quanto o dia que mal começara a clarear...
Post date: 14/01/2015 - 17:21
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Existia uma janela. A janela tinha um parapeito com cheiro a flores e água fresca. E, à janela, vivia um homem todos os minutos dos seus dias inteiros. Nela ouvia o sol a nascer, sempre à hora em que os pássaros cantavam um novo dia e pés pequenos atravessavam a rua, no ritmo preguiçoso de quem vai...
Post date: 14/01/2015 - 13:46
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Amélia caminha devagar entre os corredores de roupas penduradas em cabides, mudos e coloridos. Falam de sol, esplanadas, e caminhadas lentas, embaladas por um vento morno. Pára em frente a uma prateleira sozinha e contempla um chapéu de palha, tão simples, tão bonito, com uma fita fucsia enrolada à...
Post date: 14/01/2015 - 11:39
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Sem pressas, sem ilusões, sem interesses...de mansinho.
Como uma pluma deixa cair a tua paz em mim.
Como pétalas de rosa em queda ao sabor da brisa.
Deita sobre mim a tua alma e acalma a minha saudade.
Sem palavras que nada dizem, sem gestos banais, vem apenas.
Como se eu fosse somente leito, deita...
Post date: 14/01/2015 - 00:50
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Desço a rua que me indicaste para pensar no futuro, sigo pelo contratempo da paisagem. Dou por mim ao relento da saudade e quase desisto de procurar-te. Era interminável a avenida, e o alcatrão íngreme omitia, malicioso, o clarão do luar que forjaste para me guiar as passadas. Todas as luas são...
Post date: 14/01/2015 - 17:10
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Reverencia o prato em que comes.
Existe um mundo faminto nos olhos de alguém,
em que a luz do dia não é senão trevas entornadas numa mesa vazia.
Ama o teu lar.
Existem tectos feitos de estrelas e noites de chuva,
e paredes sem historias quentes ou risos à solta.
Rejubila com a paz.
Existem infernos...
Post date: 14/01/2015 - 13:42
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